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Pura verdade

Dezembro 2, 2009 · Deixe um Comentário

“Andar acalma. O caminhar contém uma força curadora. A colocação regular de pé diante de pé, junto com o concomitante e rítmico remar dos braços, o aumento da frequência respiratória, a leve estimulação do pulso, as atividades dos olhos e ouvidos, necessárias à determinação da direção e para a manutenção do equilíbrio, a sensação na pele causada pela passagem do vento – tudo isso são acontecimentos que congregam corpo e espírito de uma maneira indefensável e fazem a alma crescer e alargar-se, mesmo quando ela ainda está tão atrofiada e ferida.”

(SÜSKIND, Patrick. A pomba. Rio de Janeiro: Record, 1987. p. 69-97)

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Merda: uma questão filosófica e divina

Janeiro 10, 2009 · 1 Comentário

Quando era garoto e folheava o Antigo Testamento para crianças, ilustrado com gravuras de Gustave Doré, via nele o bom Deus em cima de uma nuvem. Era um velho senhor, tinha olhos, um nariz, uma longa barba, e eu dizia a mim mesmo que, como tinha boca, devia comer. Se comia, devia ter intestinos. Mas essa idéia logo me assustava, porque, apesar de pertencer a uma família pouco católica, sentia o que havia de sacrílego nessa idéia dos intestinos de Deus
Sem o menor preparo teológico, a criança que eu era naquela época compreendia espontaneamente que existe uma incompatibilidade entre a merda e Deus, e, por dedução, percebia a fragilidade da tese fundamental da antropologia cristã, segundo a qual o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Das duas uma: ou o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus – e então Deus tem intestinos -, ou Deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele.
Os antigo gnósticos pensavam tão claro como eu aos cinco anos. Para resolver esse maldito problema, Valentino, grão-mestre da gnose do século II, afirmava que Jesus “comia, bebia e não defecava”.
A merda é um problema teológico mais penoso que o mal. Deus dá liberdade ao homem, e podemos admitir que ele não seja o responsável pelos crimes da humanidade. Mas a responsabilidade pela merda cabe inteiramente àquele que criou o homem, somente a ele.

(in A insustentável leveza do ser, sexta parte “A Grande Marcha”, capítulo três.)

 

 O debate entre os que afirmam que o universo foi criado por Deus e aqueles que pensam que o universo apareceu por si mesmo implica coisas que vão além de nossa compreensão e existência. Muito mais real é a diferença entre aqueles que contestam a existência tal como foi dada do homem (pouco importa como e por quem) e aqueles que aderem a ela sem reservas.
Por trás de todas as crenças européias, sejam religiosas ou políticas, está o primeiro capítulo do Gênese, a ensinar que o mundo foi criado como devia ser, que o ser humano é bom e que, portanto, deve procriar. Chamemos essa crença fundamental de acordo categórico com o ser.
Se, ainda recentemente, a palavra “merda” era substituída nos livros por reticências, isso não se deve a razões morais. Afinal de contas, não se pode considerar que a merda seja imoral! A objeção à merda é de ordem metafísica. Defecar é dar uma prova cotidiana do caráter inaceitável da Criação. Das duas uma: ou a merda é aceitável (e, nesse caso, não precisamos nos trancar no banheiro), ou Deus nos criou de maneira inadmissível.
Segue-se que o acordo categórico do ser tem por ideal um mundo no qual a merda é negada e no qual cada um de nós se comporta como se ela não existisse. Esse ideal estético chama-se kitsch.
Essa é uma palavra alemã que apareceu em meados do sentimental século XIX e que, em seguida, se espalhou por todas as línguas. O uso repetido da palavra fez com que se apagasse seu sentido metafísico original: em essência, o kitsch é a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal quanto no sentido figurado: o kitsch exclui de seu campo visual tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.

(in A insustentável leveza do ser, sexta parte “A Grande Marcha”, capítulo cinco)

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Bela definição de tempo

Dezembro 17, 2008 · Deixe um Comentário

Retirado do livro de Rubem Alves, O Amor que Acende a Lua

“E chorou. Riobaldo de novo: ‘Toda saudade é uma espécie de velhice.’ Velhice não se mede pelos números do chronos; ela se mede por saudade. Saudade é o corpo brigando com o chronos. De novo o mesmo poema de Ricardo Reis: ele fala do ‘…deus atrox que os próprios filhos devora sempre’. Chronos é o deus terrível que vai comendo a gente e as coisas que a gente ama. A saudade cresce no corpo no lugar onde chronos mordeu. É um testemunho da nossa condição de mutilados – um tipo de prótese que dói.

Kairós mede a vida pelas pulsações do amor. O amor não suporta perder o que se amou: a filha nenezinho, no colo, no meu colo, nenezinho e colo que o tempo levou – mas eu gostaria que não tivessem sido levados! Estão na fotografia, essa invenção que se inventou para enganar o chronos, pelo congelamento do instante.

Chronos me diz que eu nada possuo. Nem mesmo o meu corpo. Se não possuo o meu próprio corpo - o espelho e a fotografia confirmam – como posso pretender possuir coisas que não possuo?

S0012-06

Heráclito foi um filósofo grego que se deixou fascinar pelo tempo. Ele era fascinado pelo rio. Contemplava o rio e via que tudo é rio. Como Vaseduva, o barqueiro que ensinou Sidarta. Percebeu que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio; na segunda vez as águas serão outras, o primeiro rio não existirá. Tudo é água que flui: as montanhas, as casas, as pedras, as árvores, os animais, os filhos, o corpo… Assim é tudo, assim é a vida: tempo que flui sem parar. Daquilo que ele supostamente escreveu, restam apenas fragmentos enigmáticos. Dentre eles, um me encanta: ‘Tempo é criança brincando, jogando.’

Tempo é criaça? O que o filósofo queria exatamente eu não sei. Mas eu sei que as crianças odeiam chronos, odeiam as ordens que vêm dos relógios. O relógio é o tempo do dever: corpo engaiolado. Mas as crianças só reconhecem, como marcadores do seu tempo, os seus próprios corpos. As crianças não usam relógios para marcar tempo; usam relógios como brinquedos. Brinquedo é o tempo do prazer: corpo com asas. Que maravilhosa transformação: usar a máquina medidora do tempo para subverter o tempo. Criança é kairós brincando com o chronos, como se ele fosse bolhas de sabão…

O ano chega ao fim. Ficou velho. Chronos faz as somas e diz que eu também fiquei mais velho. Faço as subtrações e percebo que me resta cada vez menos tempo. Fico triste: saudade antes da hora. A Raquel, quando tinha três anos, me acordou para saber se quando eu morresse eu iria ficar triste! Lembro-me do verso da Cecília, para a avó: ‘Tu eras uma ausência que se demorava, uma despedida pronta a cumprir-se…’

kairós vem em meu socorro, para espantar a tristeza. Vem como criança, brincando com chronos. Nas mãos de kairós, chronos se transforma em bolhas de sabão: redondas, perfeitas, efêmeras, eternas. Como o amor. Amor também é bolha de sabão. Disso sabia o Vinicius que escreveu para a mulher amada: ‘Que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.’ Mas, além de todas as namoradas, Vinicius namorava a vida. O amor é a vida acontecendo no momento: passado, sem futuro, presente puro, eternidade numa bolha de sabão. Robert Frost, sem ter tantas namoradas, namorou a vida em cada momento. Na sua lápide ele mandou escrever: ‘Teve um caso de amor com a vida…’ Ponho-me a brincar com a vida e uma estranha metamorfose acontece: deixo de ser velho. Sou criança de novo…”

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Vai um livro com pedaço de carne?

Dezembro 11, 2008 · 3 Comentários

Luís transformou açougue e pontos de ônibus em bibliotecas

 

Até os 11 anos ele engraxava sapatos em Brasília. Depois, trocou flanelas, escovas e latinhas de graxa pelo trabalho em um açougue, onde passou a dormir. Só aprendeu a ler e escrever aos 16 anos. Aos 18, leu o primeiro livro. Apesar da infância pobre e da educação prejudicada, Luis Amorim vem derrubando mitos e transformando a relação de milhares de brasilienses com a leitura.
A história começou naquele mesmo açougue que o empregou, e do qual, em 1998, tornou-se proprietário. Lá, entre peças de carna, facas afiadas e clientes apressados, instalou uma prateleira com 10 livros. Logo começaram a surgir leitores, e o número de obras foi aumentando. Hoje o T-Bone – primeiro açougue cultural do mundo (e muito provavelmente o único…) – recebe também peças de teatro, shows e eventos literários.
Mas quem disse que Luis parou por aí? Transformou o açougue em uma ONG e mais uma vez extrapolou os limites do lugar-comum, criando uma biblioteca que funciona 24 horas em 35 pontos de ônibus de Brasília. O projeto, batizado Parada Cultural, possui um acervo de 24 mil volumes. Para tornar-se sócio, é só estender a mão e apanhar o livro. Não é preciso apresentar carteirinha, documentos ou preencher fichas. E para quem imagina que uma coisa dessas não pode dar certo, as últimas informações: o projeto registra cerca de mil empréstimos por dia, e as taxas de não devolução são baixíssimas.

(retirado de Brasil – Almanaque de Cultura Popular. Edição de outubro, nº 114, ano 10)


O desenvolvimento de Luis já é visto na própria fachada da T-Borne

Sim meus caros amigos, ainda existe gente boa neste planeta! E não pensem que ele é o único. No início deste ano, li um livro que comprei de presente de aniversário para o meu irmão, Saí da Microsoft para mudar o mundo, de John Wood. É o relato autobiográfico de Wood, um empresário de sucesso e status na Microsoft, amigo íntimo de Bill Gates, e que desiste de toda aquela vida artificial baseada na informática para fazer algo de melhor: criar bibliotecas. Ele começa primeiro no Nepal. São poucos títulos, mas com tantos amigos influentes ele vai recebendo verba e o acervo vai aumentando. O projeto dele é reconhecido, ganha prêmios e torna-se a ONG Room to Read.


Wood ao lado do “cargueiro” de livros, no Nepal

Fica aqui a reflexão, do que podemos fazer ainda neste planeta, mas ande logo, pois o tempo é curto, já dizia Alvarenga Peixoto: “Procura ser feliz na eternidade, porque o mundo são breves momentos.”

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