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O Leitor Ideal

Transcrevo aqui o interessantíssimo primeiro capítulo do penúltimo livro do Alberto Manguel, “À mesa com o Chapeleiro Maluco”. Já escrevi aqui a respeito deste ótimo escritor, um dos meus prediletos, fera nas temáticas leitura e livros.

Notas para uma definição do leitor ideal

O leitor ideal é o escritor no exato momento que antecede a reunião das palavras na página.

O leitor ideal existe no instante que precede o momento da criação.

O leitor ideal não reconstrói uma história: ele a recria.

O leitor ideal não segue uma história: participa dela.

Um famoso programa da BBC sobre livros infantis começava, invariavelmente, com o animador perguntando: “Vocês estão sentados confortavelmente? Então vamos começar!”. O leitor ideal é também o sentador ideal.

Representações de são Jerônimo mostram-no debruçado sobre sua tradução da Bíblia, ouvindo a palavra de Deus. O leitor ideal deve aprender a ouvir.

O leitor ideal é o tradutor. Ele é capaz de dissecar o texto, retirar a pele, fazer um corte até a medula, seguir cada artéria e cada veia e depois dar vida a um novo ser sensível. O leitor ideal não é um taxidermista.

Para o leitor ideal todos os recursos são familiares.

Para o leitor ideal todas as brincadeiras são novas.

“É preciso ser um inventor para ler bem.” Ralph Waldo Emerson.

O leitor ideal tem uma aptidão ilimitada para o esquecimento. Ele pode afastar de sua memória o conhecimento de que Dr. Jekill e Mr. Hyde são a mesma pessoa, que Julien Sorel terá sua cabeça cortada, que o nome do assassino de Roger Ackroyd é Fulano de Tal.

O leitor ideal não está interessado nos escritos de Brett Easton Ellis.

O leitor ideal sabe aquilo que o escritor apenas intui.

O leitor ideal subverte o texto. O leitor idela não pressupõe as palavras do escritor.

O leitor ideal é um leitor cumulativo: sempre que lê um livro ele acrescenta uma nova camada de lembranças à narrativa.

Todo leitor ideal é um leitor associativo. Lê como se todos os livros fossem obra de um autor intemporal e prolífico.

O leitor ideal não pode expressar seu conhecimento por meio de palavras.

Depois de fechar o livro, o leitor ideal sente que se não o tivesse lido o mundo seria mais pobre.

O leitor ideal jamais contabiliza seus livros.

O leitor ideal é ao mesmo tempo generoso e ávido.

O leitor ideal lê toda literatura como se fosse anônima.

O leitor ideal gosta de usar o dicionário.

O leitor ideal julga um livro por sua capa.

Ao ler um livro de séculos atrás, o leitor ideal sente-se imortal.

Paolo e Francesca não eram leitores ideais, pois confessaram a Dante que depois de seu primeiro beijo pararam de ler. Leitores ideais teriam se beijado e continuariam lendo. Um amor não exclui o outro.

O leitor ideal não sabe que é o leitor ideal até chegar ao final do livro.

O leitor ideal partilha da ética de Dom Quixote, o desejo de Madame Bovary, a luxúria da esposa de Bath, o espírito aventureiro de Ulisses, a integridade de Holden Caufield, ao menos no espaço textual.

O leitor ideal percorre as trilhas conhecidas. “Um bom leitor, um leitor importante, um leitor ativo e criativo é um leitor que relê.” Vladimir Nabokov.

O leitor ideal é politeísta.

O leitor ideal assegura, para um livro, a promessa da ressurreição.

Robinson Crusoé não é um leitor ideal. Lê a Bíblia para encontrar respostas. Um leitor ideal lê para encontrar perguntas.

Todo livro, bom ou ruim, tem seu leitor ideal.

Para o leitor ideal, cada livro é lido, até certo ponto, como sua própria autobiografia.

O leitor ideal não tem uma nacionalidade precisa.

Às vezes, um escritor pode esperar muitos séculos para encontrar um leitor ideal. Blake demorou 15o anos para encontrar Northrop Frye.

O leitor ideal de Stendhal: “Eu escrevo para apenas cem leitores, para serem infelizes, amáveis, encantadores, nunca moralistas ou hipócritas, aos quais eu gostaria de agradar; só conheço um ou dois deles.”

O leitor ideal conhece a infelicidade.

Os leitores ideais mudam com a idade. Aquele que aos 14 anos foi um leitor ideal dos Veinte poemas de amor de Neruda já não o é aos 30. A experiência apaga o brilho de certas leituras.

Pinochet, que proibiu Dom Quixote por pensar que esse livro incitava à desobediência civil, foi seu leitor ideal.

O leitor ideal jamais esgota a geografia do livro.

O leitor ideal deve estar disposto não apenas a surpreender a incredulidade, mas a abraçar uma nova fé.

O leitor ideal nunca pensa: “Se ao menos…”.

Anotações nas margens indicam um leitor ideal.

O leitor ideal faz proselitismo.

O leitor ideal é volúvel e não sente culpa disso.

O leitor ideal é capaz de se apaixonar por um dos personagens do livro.

O leitor ideal não se preocupa com os anacronismos, com a verdade documentada, com a exatidão histórica, com a precisão topográfica. O leitor ideal não é um arqueólogo.

O leitor ideal é um cumpridor implacável das regras e normas que cada livro cria para si mesmo.

“Há três tipos de leitor: um, que aprecia o livro sem julgá-lo; três, que o julga sem apreciá-lo; outro, no meio, que o julga enquanto o aprecia e o aprecia enquanto o julga. O último tipo verdadeiramente reproduz uma obra de arte novamente; seus exemplos não são numerosos.” Goethe, em carta a Johann Friedrich Rochlitz.

Os leitores que cometeram suicídio depois de ler Werther não eram ideais, mas simplesmente leitores sentimentais.

Os leitores ideais quase nunca são sentimentais.

O leitor ideal quer chegar ao final do livro e ao mesmo tempo saber que o livro jamais terminará.

O leitor ideal nunca se impacienta.

O leitor ideal não liga para os gêneros.

O leitor ideal é (ou parece ser) mais inteligente do que o escritor; o leitor ideal não usa isso contra ele.

Há um momento em que cada leitor se considera o leitor ideal.

Boas intenções não são suficientes para produzir um leitor ideal.

O Marquês de Sade: “Só escrevo para quem é capaz de me entender, e eles me lerão sem perigo”.

O Marquês de Sade está errado: o leitor ideal está sempre em perigo.

O leitor ideal é o personagem principal de um romance.

Paul Valéry: “Um ideal literário: saber, enfim, não dispor na página nada além do ‘leitor’”.

O leitor ideal é alguém com quem o autor não se importaria em passar uma noite bebendo uma taça de vinho.

Um leitor ideal não deveria ser confundido com um leitor virtual.

Um escritor nunca é seu próprio leitor ideal.

A literatura não depende de leitores ideais, mas apenas de leitores suficientemente bons.

Conclusão: segundo Manguel, o autor deste blog não é um leitor ideal.


Ele respira leitura

Eu sempre divido a minha leitura por lugares: no banheiro, na minha cama, no meu trabalho, na rua… E para a leitura “no meu trabalho”, estou com o livro “Uma História da Leitura”, de Alberto Manguel.

Li as trinta primeiras páginas boquiaberto até me acostumar com tanta coisa que ele cita. Alberto simplesmente é um leitor voraz! No livro, ele cita experiências da adolescência, onde trabalhou em livrarias e ainda teve a oportunidade de ler para Jorge Luis Borges, que passava por um sério problema de visão. Além de várias citações, ele apresenta suas opiniões sobre autores e seus livros, trata-os de uma maneira caridosa.

Acho que todo estudante de Letras deve ler este livro. Melhor, deve ter um exemplar deste entre seus Machado de Assis, Dostoievski, Kafka…

 


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