Terminei de reler um livro que acho muito bem escrito: “O sou o mensageiro”, do australiano Markus Zusak. Mas não escrevo este post para resenhá-lo e sim para colocar um trecho muito engraçado. Nas próximas linhas, o protagonista da história (Ed Kennedy) vai até a biblioteca. Para mim, que estudo Biblioteconomia, ficou fácil, mas perceba a evolução da Biblioteconomina romanceada, as mudanças tecnológicas, o perfil do profissional bibliotecário. É super cabível!
“É bem verdade que eu já li uma porrada de livros, mas comprei todos eles, sobretudo nos sebos da vida. A última vez que de fato usei uma biblioteca, ainda havia aquelas gavetas enormes de catálogos. Mesmo na escola, quando passaram a usar o computador pra armazenar os catálogos, eu ainda usava as gavetas. Eu curtia puxar o cartão de um autor e ver a lista dos livros.
Quando entro na biblioteca, penso que vou ser atendido por uma senhora atrás do balcão, mas é um cara novo, mais ou menos da minha idade, de cabelo comprido e endulado. Ele é meio grosso, mas gosto dele.
– Você tem aqueles cartões? – pergunto.
– Que tipo de cartões? Cartões de jogos? De biblioteca? De crédito? – ele está tirando um sarro. – O que você quer dizer exatamente?
Percebo que ele está querendo me deixar com cara de burro e inútil, embora eu não precise de sua ajuda pra isso. Começo então a explicar:
– Sabe, os cartões com todos os escritores, autores e tudo o mais.
– Ah! – e ele solta uma boa gargalhada. – Já faz muito tempo que você não pisa em uma biblioteca, não é mesmo?
– Pois é – respondo. Agora sim me sinto burro e inútil. Melhor até pendurar uma placa no pescoço dizendo: ‘Pode bater que é otário.’ Dou uma disfarçada e levo na boa. – Mas já li Joyce, Dickens e Conrad.
– Quem são esses?
Agora eu levo vantagem.
– O quê? Você não leu esses caras? E tira onda de bibliotecário?
Ele agora me dá razão, com um sorrisinho do mal.
– Touché.
Touché.
Não suporto essa expressão.
Bem, mas o que interessa é que o cara agora ficou mais solícito. Ele diz:
– A gente não usa mais cartões; agora é tudo no computador. Vem.
Vamos até os computadores e ele diz:
– Bem, me diz um autor aí.
Dou uma gaguejada porque não quero mencionar uma das pessoas no ás de espadas. Esses são meus. Então mando um Shakespeare.
Ele digita o nome e logo todos os títulos aparecem na tela. Então ele digita o número ao lado de ‘Macbeth’ e diz:
– Aqui. Entendeu como é?
Leio a tela e saco tudo.
– Pô, valeu.
– Sem problema.
Ele se afasta e me deixa só, com as teclas, os escritores e a tela.”
(ZUSAK, Markus. Eu sou o mensageiro. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2007. pp. 184-185)



