Dobrado

Mesmo com aquele balcão nos separando e uma conversa de outra mulher ao lado, quando ela chegou senti sua presença, sua áurea. O olhar era marcante, forte e a voz… que suave! Aos poucos a voz da mulher ao lado foi se dissipando, pois fiquei analisando a outra na minha frente. Parecia Lispector. O olhar me garantia isso. Foi o primeiro encontro.

            Nos outros dias, fui sabendo da vida dela a partir do comentário de outras pessoas. Foi aí que percebi que não fora somente eu quem sentira a presença. Comentavam bastante acerca dela e em poucas semanas já sabia que era uma jornalista, mãe solteira, aventureira. De repente, aquela pose que me chamou tanto atenção – era uma pose séria – foi-se perdendo, deixando lugar para uma outra pose, de mulher feliz, batalhadora, inteligentíssima. Os livros nos aproximaram. Kafka, Calvino, Virgínia, Drummond, Vinícius… Clarice… Finalmente encontrei alguém com quem pudesse comentar todos esses livros de uma maneira respeitosa e inteligente.

            Depois dos livros, a sala dos professores nos aproximou. Ela ao computador, eu aos livros, revistas, mp4. Os temas das conversas já eram mais íntimos. Em um meio-dia de sexta-feira soube inúmeras coisas que se encaixariam em Macabéa. Ela tinha uma vida incrível! Mas muito mais incrível, a sua grande característica, é o seu modo criterioso de avaliar música, cinema, literatura, poesia, pessoas, sentimentos… Um modo criterioso de viver, diga-se de passagem.

sorriso

Sendo este um jornal por excelência, e por excelência dos precisa-se e oferece-se, vou pôr um anúncio em negrito: precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

                                                                                  (Clarice Lispector)

 

 

 

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About jorgedoprado

Doutorando em Ciência da Informação (UFSC), Mestre em Gestão de Unidades de Informação (UDESC), Bacharel em Biblioteconomia (UDESC). Ver todos os artigos de jorgedoprado

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