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Brilhantismo dostoievskiano

“Entre as lembranças que cada um de nós possui, há algumas que não contamos senão aos nossos amigos. Há outras ainda que não confessaremos nem mesmo ao nossos amigos, que não repetiremos senão a nós mesmos, e aliás, sob o signo do segredo. Mas existem enfim coisas que o homem não consente nem em confessar a si mesmo. No curso de sua existência, todo homem honesto acumulou dessas lembranças suficientemente. Direi mesmo que seu número é tanto mais importante, quanto o homem é mais honesto. Eu, em todo o caso, não faz muito tempo que me decidi a me lembrar de certas antigas aventuras minhas; até aqui, evitei-as, e não sem um tanto de inquietação. Ora, agora, quando as evoco e quero mesmo anotá-las, agora tenho a prova: é possível ser franco e sincero, ao menos cara a cara consigo mesmo, e poder-se-á dizer toda a verdade? Observarei a este propósito que Heine assegura que não podem existir autobiografias exatas, e que o homem mente sempre, quando fala de si mesmo. Rousseau, com seu ponto de vista, certamente nos enganou nas suas Confissões e mesmo deliberadamente, por vaidade. Estou certo de que Heine tem razão:  compreendo muito bem que nos possamos sobrecarregar de crimes abomináveis, apenas por vaidade, e compreendo também o que pode ser este sentimento. Mas Heine tinha em vista as confissões públicas; ora, eu não escrevo senão para mim sozinho e declaro de uma vez por todas que, se pareço dirigir-me ao leitor, é simplesmente um processo de que me sirvo para maior facilidade. Não é senão uma forma, uma forma vazia; e quanto aos leitores, não os terei jamais. Já o declarei.
   Não quero ser incomodado em nada na redação de minhas notas. Não observarei nenhuma ordem, nenhum sistema. Escreverei simplesmente o que me lembrar.
   Mas vós poderíeis me pegar na palavra desde o começo e me perguntar: se é verdade que não pensa em seus leitores, por que então combina consigo mesmo – e no papel ainda! – que não observará nenhuma ordem, nenhum sistema, que registrará o que lhe passar pela cabeça, etc? Por que se explica? Por que essas desculpas?
   Pois bem! eis aí! é assim!
   Há, de resto, aí, um caso psicológico interessante. É possível que eu seja muito simplesmente um covarde. Mas é possível também que imagine diante de mim um público, a fim de não perder o sentido das conveniências. É possível ter milhares desses motivos…
   Mas há ainda outra coisa: por que, em suma, pus-me a escrever? Se não é para o público, não posso evocar minhas lembranças sem as lançar ao papel?
   Com efeito, mas quando estiverem fixadas no papel, adquirirão um aspecto mais solene. Isto me constrangerá, julgar-me-ei melhor e meu estilo ganhará. Demais, é possível que isto me traga certo consolo. Assim, hoje, estou particularmente oprimido por uma lembrança longíqua; surgiu em mim muito nitidamente há alguns dias, e, desde então, me persegue sem tréguas, como um desses motivos musicais que não pretendem vos largar. Ora, é preciso absolutamente que eu me desembarace dela. Tenho centenas de recordações desse gênero; mas uma delas às vezes desperta de súbito e me agarra pela garganta. Eu imagino, que não sei mesmo por quÊ, que se a registrar, ficarei livre. Por que não tentaria?
   E depois, enfim, eu me aborreço e nunca faço nada. Escrever as lembranças é um trabalho. Diz-se que o trabalho torna o homem bom e honesto. É então uma oportunidade que se me oferece…”

                        (parágrafos finas do conto O Subsolo, de Fédor Dostoievski)


O mundo é bárbaro

Eis o último livro do Luis Fernando Verissimo. Achava que ainda não era o tempo de comprá-lo, esperar o tempo passar; mas não resisti numa Feira do Livro que fui aqui na cidade. Não queria comprar e saí com dois títulos e mais um reservado na livraria!

O mundo é barbaro – e o que nós temos a ver com isso tem um tom mais sério. Não pdoeria ser super engraçado falando de Barack Obama, China, aquecimento global, enfim, não poderia ser engraçado falando do mundo. Ainda há, porém, os vestígios de humor que só o Verissimo tem.

Para quem ficou com água na boca, aqui vai um pedacinho:

No filme O Exterminador do Futuro um schwarzengger [isso mesmo, com minúscula] é mandado ao passado para matar a mãe de um líder revolucionário que está incomodando o governo. Matar o inimgo pela raiz, por assim dizer. A lógica é inatacável: se não nascer no passado, o problema não existirá no futuro. Muita gente já deve ter imaginado o que faria se tivesse o mesmo poder de voltar atrás para alterar um detalhe, refazer uma escolha, corrigir uma bobagem e mudar a sua vida. Há quem diga que a primeira tarefa do hipotético exterminador deveria ser voltar 508 ano, se postar na praia e, à aproximação dos barcos de Cabral, começar a agitar os braços e gritar ‘Não! Não!'”