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Bela definição de tempo

Retirado do livro de Rubem Alves, O Amor que Acende a Lua

“E chorou. Riobaldo de novo: ‘Toda saudade é uma espécie de velhice.’ Velhice não se mede pelos números do chronos; ela se mede por saudade. Saudade é o corpo brigando com o chronos. De novo o mesmo poema de Ricardo Reis: ele fala do ‘…deus atrox que os próprios filhos devora sempre’. Chronos é o deus terrível que vai comendo a gente e as coisas que a gente ama. A saudade cresce no corpo no lugar onde chronos mordeu. É um testemunho da nossa condição de mutilados – um tipo de prótese que dói.

Kairós mede a vida pelas pulsações do amor. O amor não suporta perder o que se amou: a filha nenezinho, no colo, no meu colo, nenezinho e colo que o tempo levou – mas eu gostaria que não tivessem sido levados! Estão na fotografia, essa invenção que se inventou para enganar o chronos, pelo congelamento do instante.

Chronos me diz que eu nada possuo. Nem mesmo o meu corpo. Se não possuo o meu próprio corpo – o espelho e a fotografia confirmam – como posso pretender possuir coisas que não possuo?

S0012-06

Heráclito foi um filósofo grego que se deixou fascinar pelo tempo. Ele era fascinado pelo rio. Contemplava o rio e via que tudo é rio. Como Vaseduva, o barqueiro que ensinou Sidarta. Percebeu que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio; na segunda vez as águas serão outras, o primeiro rio não existirá. Tudo é água que flui: as montanhas, as casas, as pedras, as árvores, os animais, os filhos, o corpo… Assim é tudo, assim é a vida: tempo que flui sem parar. Daquilo que ele supostamente escreveu, restam apenas fragmentos enigmáticos. Dentre eles, um me encanta: ‘Tempo é criança brincando, jogando.’

Tempo é criaça? O que o filósofo queria exatamente eu não sei. Mas eu sei que as crianças odeiam chronos, odeiam as ordens que vêm dos relógios. O relógio é o tempo do dever: corpo engaiolado. Mas as crianças só reconhecem, como marcadores do seu tempo, os seus próprios corpos. As crianças não usam relógios para marcar tempo; usam relógios como brinquedos. Brinquedo é o tempo do prazer: corpo com asas. Que maravilhosa transformação: usar a máquina medidora do tempo para subverter o tempo. Criança é kairós brincando com o chronos, como se ele fosse bolhas de sabão…

O ano chega ao fim. Ficou velho. Chronos faz as somas e diz que eu também fiquei mais velho. Faço as subtrações e percebo que me resta cada vez menos tempo. Fico triste: saudade antes da hora. A Raquel, quando tinha três anos, me acordou para saber se quando eu morresse eu iria ficar triste! Lembro-me do verso da Cecília, para a avó: ‘Tu eras uma ausência que se demorava, uma despedida pronta a cumprir-se…’

kairós vem em meu socorro, para espantar a tristeza. Vem como criança, brincando com chronos. Nas mãos de kairós, chronos se transforma em bolhas de sabão: redondas, perfeitas, efêmeras, eternas. Como o amor. Amor também é bolha de sabão. Disso sabia o Vinicius que escreveu para a mulher amada: ‘Que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.’ Mas, além de todas as namoradas, Vinicius namorava a vida. O amor é a vida acontecendo no momento: passado, sem futuro, presente puro, eternidade numa bolha de sabão. Robert Frost, sem ter tantas namoradas, namorou a vida em cada momento. Na sua lápide ele mandou escrever: ‘Teve um caso de amor com a vida…’ Ponho-me a brincar com a vida e uma estranha metamorfose acontece: deixo de ser velho. Sou criança de novo…”


Leitura para intervalos

Gosto de ter dois livros para ler: um mais complexo e outro de crônicas ou poesias. Para acompanhar o livro-lição-de-moral-idiossincrático de Paulo Coelho, escolhi hoje Olhar Crônico, do jornalista César Tralli.

Para dar água na época a você internauta, eis a sinopse:

 

“Há coisas que as imagens não conseguem dizer – só as palavras. Aquelas podem ser mais poderosas, mas estas são mais capazes, e é muito bom constatar isto pelo texto de um homem de televisão. Aos 30 anos de idade, César Tralli já é um dos melhores repórteres do vídeo e agora, com estas crônicas, fica-se sem saber se ele é melhor sendo olhado ou sendo lido.

Trata-se de um livro feito com o que a TV já mostrou – e não mostrou. São bastidores, aspectos que ficaram escondidos, o processo, mais do que o resultado final de um acontecimento, aquilo que a câmera não consegue captar, só a sensibilidade humana.

A TV pode, por exemplo, mostrar uma viagem no Expresso-Oriente – o requinte do mais luxuoso trem do mundo, o conforto, o glamour. Mas só o olhar bem-humorado e a prosa agradável do cronista conseguem contar como é vestir um black-tie sem tomar banho nesse hotel cinco estrela onde há de tudo, menos chuveiro. ‘Naquela noite, entendi porque os franceses são tão bons na arte dos perfumes.’

Durante cinco anos como correspondente da TV Globo na Europa, Tralli viajou pelo mundo. São essas viagens que refazemos com ele agora, pela Espanha, Líbano, Israel, Ucrânia, Itália, Turquia, Armênia, Portugal. São aventuras passageiras que a memória do repórter guardou e que o texto do cronista manteve vivas e gostosas de ler. Boa Viagem!”

                                                            

                                                              Zuenir Ventura, prólogo do livro