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Jamais…

surgirá na face deste planeta um escritor como tal.

Eis a frase que abre o meu livro predileto, que jamais será igualado por qualquer outro escritor:

“No dia seguinte, ninguém morreu.”

 

Saramago, que tenhas com Deus, conversas definitivas que foram iniciadas em seus romances.


Afronta a Deus

É somente com este título que posso sintetizar “Caim”, o último livro do estupendo José Saramago. Não que eu seja católico, ou um crente fervoroso em Deus, mas com este livro Saramago realmente faz uma grande afronta a tudo o que Deus (no livro grafado com minúscula, “deus”) conquistou historicamente falando. Para você melhor entender, leia este trecho que separei, tratando do assassinato de Isaac pelo pai Abraão, que na visão de Saramago, foi tudo culpa de deus.

 

Há uns três dias, não mais tarde, tinha ele [deus] dito a abraão, o pai do rapazito que carrega às costas o molho de lenha, Leva contigo o teu único filho, isaac, a quem tanto queres, vai à região do monte mória e oferece-o em sacrifício a mim sobre um dos montes que eu te indicar. O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água, quanto tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia de viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que eu vou até lá adiante com o menino, para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com a sua língua bífida, que, neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes.

SARAMAGO, José. Caim. Companhia das Letras: Rio de Janeiro, 2009. p. 79.


Tão sublime

Encontrei um blog português que fala muito a respeito de José Saramago. Foi lá que assisti a alguns vídeos muito interessantes e o melhor: um post anunciando o novo livro dele!! Pensei que o Nobel de Literatura, com 86 anos, pararia com A Viagem do Elefante, publicado ano passado, mas graças a Deus que não.

Não canso de repetir que Saramago é o meu autor predileto. Tornou-se o meu preferido quando li dele um livro a respeito da Morte, um assunto que acho fantástico. Mas não é porque ele é o meu preferido que li todos os livros dele. Primeiro porque não são livros fáceis de ler e segundo porque eu quero ler os exemplares comprados (ou ganhados) pela minha pessoa; portanto, li somente “As Intermitências da Morte”, “A Viagem do Elefante”, “Ensaio sobre a Cegueira” e quase todos os contos de “Objecto Quase” (o único de uma biblioteca). E não pensem também que quero acelerar este processo. Quero deliciar os livros, devagarosamente, como se não fossem jamais acabar.

 

Termino com esta bela frase, de Jorge Luis Borges:

“Tenho a suspeita de que a espécia humana – a única – está prestes a extinguir-se e que a Biblioteca perdurará: iluminada, solitária, infinita, perfeitamente imóvel, armada de volumes preciosos, inútil, incorruptível, secreta.”


Diário de um Universitário #11

Enfim, a segunda fase! Estava ansioso por isso, pois seria um semestre de escolhas (e que escolhas!).

Depois de uma semana de aula, com três livros para ler e um seminário para desenvolver sobre Catalogação e Second Life (sabe algo sobre isso? o que está esperando em enviar um e-mail então?! rs) mais a caminhada às quintas-feiras às 7:30 antes de três aulas de Teorias Administrativas; eis que resolvi dedicar a minha tarde, que eram preenchidas por boas sonecas (não estou mais trabalhando), por algo mais construtivo.

Na segunda-feira fui à Livraria Livros e Livros na UFSC. Como eu precisava comprar um livro do Weber e mais o presente de aniversário do meu irmão (com meros dois meses de atraso!), fiquei um bom tempo por lá. É um ótimo espaço e para quem é de Florianópolis vale a pena conferir.

Como eu precisava aproveitar este tempo livre e “pagar” as visitas que devia desde antes do recesso, a tarde de ontem foi dedicada a uma visita à biblioteca do SESC. Cheguei perto de 13:15 e minha amiga de sala mostrou um pouco da biblioteca e depois deixou-me à vontade. Li Revista Bravo e passei os olhos por todas as estantes. É claro que não deixei de observar a estrutura, que ao mesmo tempo em que é moderna, é muito aconchegante. Adorei a disposição das luminárias – que se voltam às mesas para ter um maior alcance de iluminação -, os móveis elegantes e confortáveis, mas nada, NADA se compara ao chão. Sim, chão! Adeus aos barulhos irritantes dos passos (o que falar das madames com seus saltos galopantes?). Aquele chão é incrível, parece que saiu de um filme de fantasia, ou que ele tem uma tecnologia de absorção de barulho… sei lá, simplesmente magnífico! Passei a tarde toda lendo Objecto Quase do inigualável José Saramago (preciso voltar lá para ler os dois últimos contos).

Depois visitei alguns sebos do centro, procurando por alguns títulos. Voltei para casa perto das 19 horas e dentro de uma hora, aula na UFSC.

Termino com esta pequena citação retirada de um livro* que eu li já faz um tempo e coube perfeitamente à “reclamação” da Andreia sobre a biblioteca do SESC ser pequena:

“O leigo julga uma biblioteca pelo número de livros que contém. É ingenuidade. Só o neófilo impressiona-se com o número de livros de uma biblioteca. O que vale é qualidade. Um biblioteca ‘non refert quam multos sed quam bonos habeat’, e os bons são poucos.”

 

*Que ninguém da área de Normalização leia isso, mas é que realmente eu não lembro do nome do livro. Tenho a leve impressão que saiu do livro O bibliófilo aprendiz, de Rubens Borba de Moraes.


No dia seguinte ninguém morreu

Já me perguntaram, muitas vezes, qual é o meu livro favorito ou autor favorito. E sempre respondi que não encontrei. Um pouco é pela minha seletividade, seleciono por demais, analisando detalhes. Outro tanto, é por eu ser eclético, gosto de muitos gêneros, portanto, procuro o melhor de cada gênero.

Mas sei que tenho os melhores, aqueles que na primeira leitura deixaram-me boquiaberto. E um dos melhores é José Saramago.

Na época em que eu estava escrevendo um livro, pesquisei muito para ver se ninguém teve alguma idéia parecida. Quando quis escrever sobre a morte, encontrei dois livros na qual a tão temível das gentes era a protagonista: A menina que roubava livros e o incomparável As intermitências da morte.

Quando li os primeiros capítulos de As intermitências vi que aquilo poderia ter saído da minha cabeça, pois era justamente sobre aquilo que eu queria escrever, de uma forma simples, mas ao mesmo tempo de um psicológico complexo.

Quando quero falar sobre este livro, as palavras já sumiram. Parece que elas têm medo de se confrontar com o livro. Portanto, para relembrar do livro e dar um sabor de quero mais, segue o sutil trecho:

 

 

No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. Nem sequer um daqueles acidentes de automóvel tão frequentes em ocasiões festivas, quando a alegre irresponsabilidade e o excesso de álcool se desafiam mutuamente nas estradas para decidir sobre quem vai conseguir chegar à morte em primeiro lugar. A passagem do ano não tinha deixado atrás de si o habitual e calamitoso regueiro de óbitos, como se a velha átropos da dentuça arreganhada tivesse resolvido embainhar a tesoura por um dia. Sangue, porém, houve-o, e não pouco. Desvairados, confusos, aflitos, dominando a custo as náuseas, os bombeiros extraíam da amálgama dos destroços míseros corpos humanos que, de acordo com a lógica matemática das colisões, deveriam estar mortos e bem mortos, mas que, apesar da gravidade dos ferimentos e dos traumatismos sofridos, se mantinham vivos e assim eram transportados aos hospitais, ao som das dilacerantes sereias das ambulâncias. Nenhuma dessas pessoas morreria no caminho e todas iriam desmentir os mais pessimistas prognósticos médicos, Esse pobre diabo não tem remédio possível, nem valia a pena perder tempo a operá-lo, dizia o cirurgião à enfermeira enquanto esta lhe ajustava a máscara à cara. Realmente, talvez não houvesse salvação para o coitado no dia anterior, mas o que estava claro é que a vítima se recusava a morrer neste. E o que acontecia aqui, acontecia em todo o país. Até à meia-noite em ponto do último dia do ano ainda houve gente que aceitou morrer no mais fiel acatamento às regras, quer as que se reportavam ao fundo da questão, isto é, acabar-se a vida, quer as que atinham às múltiplas modalidades de que ele, o referido fundo da questão, com maior ou menor pompa e solenidade, usa revestir-se quando chega o momento fatal. Um caso sobre todos interessante, obviamente por se tratar de quem se tratava, foi o da idosíssima e veneranda rainha-mãe. Às vinte e três horas e cinquenta e nove minutos daquele dia trinta e um de dezembro ninguém seria tão ingénuo que apostasse um pau de fósforo queimado pela vida da real senhora. Perdida qualquer esperança, rendidos os médicos à implacável evidência, a família real, hierarquicamente disposta ao redor do leito, esperava com resignação o derradeiro suspiro da matriarca, talvez umas palavrinhas, uma última sentença edificante com vista à formação moral dos amados príncipes seus netos, talvez uma bela e arredondada frase dirigida à sempre ingrata retentiva dos súbditos vindouros. E depois, como se o tempo tivesse parado, não aconteceu nada. A rainha-mãe nem melhorou nem piorou, ficou ali como suspensa, baloiçando o frágil corpo à borda da vida, ameaçando a cada instante cair para o outro lado, mas atada a este por um ténue fio que a morte, só podia ser ela, não se sabe por que estranho capricho, continuava a segurar. Já tínhamos passado ao dia seguinte, e nele, como se informou logo no princípio deste relato, ninguém iria morrer.