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Merda: uma questão filosófica e divina

Quando era garoto e folheava o Antigo Testamento para crianças, ilustrado com gravuras de Gustave Doré, via nele o bom Deus em cima de uma nuvem. Era um velho senhor, tinha olhos, um nariz, uma longa barba, e eu dizia a mim mesmo que, como tinha boca, devia comer. Se comia, devia ter intestinos. Mas essa idéia logo me assustava, porque, apesar de pertencer a uma família pouco católica, sentia o que havia de sacrílego nessa idéia dos intestinos de Deus
Sem o menor preparo teológico, a criança que eu era naquela época compreendia espontaneamente que existe uma incompatibilidade entre a merda e Deus, e, por dedução, percebia a fragilidade da tese fundamental da antropologia cristã, segundo a qual o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus. Das duas uma: ou o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus – e então Deus tem intestinos -, ou Deus não tem intestinos e o homem não se parece com ele.
Os antigo gnósticos pensavam tão claro como eu aos cinco anos. Para resolver esse maldito problema, Valentino, grão-mestre da gnose do século II, afirmava que Jesus “comia, bebia e não defecava”.
A merda é um problema teológico mais penoso que o mal. Deus dá liberdade ao homem, e podemos admitir que ele não seja o responsável pelos crimes da humanidade. Mas a responsabilidade pela merda cabe inteiramente àquele que criou o homem, somente a ele.

(in A insustentável leveza do ser, sexta parte “A Grande Marcha”, capítulo três.)

 

 O debate entre os que afirmam que o universo foi criado por Deus e aqueles que pensam que o universo apareceu por si mesmo implica coisas que vão além de nossa compreensão e existência. Muito mais real é a diferença entre aqueles que contestam a existência tal como foi dada do homem (pouco importa como e por quem) e aqueles que aderem a ela sem reservas.
Por trás de todas as crenças européias, sejam religiosas ou políticas, está o primeiro capítulo do Gênese, a ensinar que o mundo foi criado como devia ser, que o ser humano é bom e que, portanto, deve procriar. Chamemos essa crença fundamental de acordo categórico com o ser.
Se, ainda recentemente, a palavra “merda” era substituída nos livros por reticências, isso não se deve a razões morais. Afinal de contas, não se pode considerar que a merda seja imoral! A objeção à merda é de ordem metafísica. Defecar é dar uma prova cotidiana do caráter inaceitável da Criação. Das duas uma: ou a merda é aceitável (e, nesse caso, não precisamos nos trancar no banheiro), ou Deus nos criou de maneira inadmissível.
Segue-se que o acordo categórico do ser tem por ideal um mundo no qual a merda é negada e no qual cada um de nós se comporta como se ela não existisse. Esse ideal estético chama-se kitsch.
Essa é uma palavra alemã que apareceu em meados do sentimental século XIX e que, em seguida, se espalhou por todas as línguas. O uso repetido da palavra fez com que se apagasse seu sentido metafísico original: em essência, o kitsch é a negação absoluta da merda; tanto no sentido literal quanto no sentido figurado: o kitsch exclui de seu campo visual tudo o que a existência humana tem de essencialmente inaceitável.

(in A insustentável leveza do ser, sexta parte “A Grande Marcha”, capítulo cinco)


Férias e a perspectiva da literatura para 2009

Férias para mim sempre foi sinônimo de muita leitura. Ano passado por exemplo, nos meses de dezembro e janeiro, cheguei a ler 23 títulos. Infelizmente, não posso dizer o mesmo deste ano. Como fui aprovado em Letras Português na Universidade Federal de Santa Catarina, agora tenho de procurar uma casa. Faço quase que o impossível na internet à procura de moradia barata, segura, de preferência mobiliada e próxima à UFSC ou à UDESC. Muita gente procurando e isso tem me tomado um bom tempo da leitura.

Concomitante a isso, tenho dois concursos literários e preciso separar alguns textos que poderiam vir a ganhar, na minha concepção. Quis também assistir a alguns filmes e mais algumas horas também se foram. Meus pais passaram o réveillon no norte do Paraná, eis um motivo a mais: cuidar e limpar a casa. Tenho um projeto para a Austrália, mas já está quase finalizado.

No momento, estou ainda no meu terceiro título. Nestas férias li “Fora de órbita” (Woody Allen), “O jogo do anjo” (Zafón) e atualmente estou com um do Saramago, “O Homem Duplicado”.

Finalmente desisti de montar um banco de dados para os meus livros e resolvi baixar um da internet. O programa tem boas funcionalidades, agora basta cadastrar sinopse, ISBN, tags, autor, ano, número de páginas, foto do livro e por aí vai… Vai levar um bom tempo até cadastrar os 200 livros que tenho.

 

Mas e qual será a perspectiva da literatura para 2009? Saímos do ano de Machado, Graciliano e entramos para qual? Quem terá a sua morte comemorada? Quanto à literatura mundial, ainda acho que a fórmula romance-país diferente-sofrimento será a constante (o que é uma pena). O “povão” gostou de romances como A Cidade do Sol, A Distância Entre Nós, O Guardião de Memórias, mas também teve um pouco de fantasia, como nos livros de Stephenie Meyer (Crepúsculo, Lua Nova e o recente Eclipse). Tiveram muitas reedições de grandes títulos (Irmãos Kamazóv e Dom Quixote), principalmente relacionados ao Machado de Assis, sem falar nos inúmeros que apareceram somente para falar dele.  Mas chega de falar de 2008… Creio que em 2009 a originalidade ganhará espaço. Foi assim com Markuz Zusak, que sobressaiu-se muito bem em meio a romances melosos que estavam pipocando pelos cantos do mundo. Claro que as garotinhas sedentas por vampiros não deixarão Stephenie Meyer de lado, já que sairá a tradução de mais dois livros dela no Brasil. Bom, desisto… 2009 ainda é um enigma para mim! Você consegue decifrá-lo?


Bela definição de tempo

Retirado do livro de Rubem Alves, O Amor que Acende a Lua

“E chorou. Riobaldo de novo: ‘Toda saudade é uma espécie de velhice.’ Velhice não se mede pelos números do chronos; ela se mede por saudade. Saudade é o corpo brigando com o chronos. De novo o mesmo poema de Ricardo Reis: ele fala do ‘…deus atrox que os próprios filhos devora sempre’. Chronos é o deus terrível que vai comendo a gente e as coisas que a gente ama. A saudade cresce no corpo no lugar onde chronos mordeu. É um testemunho da nossa condição de mutilados – um tipo de prótese que dói.

Kairós mede a vida pelas pulsações do amor. O amor não suporta perder o que se amou: a filha nenezinho, no colo, no meu colo, nenezinho e colo que o tempo levou – mas eu gostaria que não tivessem sido levados! Estão na fotografia, essa invenção que se inventou para enganar o chronos, pelo congelamento do instante.

Chronos me diz que eu nada possuo. Nem mesmo o meu corpo. Se não possuo o meu próprio corpo – o espelho e a fotografia confirmam – como posso pretender possuir coisas que não possuo?

S0012-06

Heráclito foi um filósofo grego que se deixou fascinar pelo tempo. Ele era fascinado pelo rio. Contemplava o rio e via que tudo é rio. Como Vaseduva, o barqueiro que ensinou Sidarta. Percebeu que não é possível entrar duas vezes no mesmo rio; na segunda vez as águas serão outras, o primeiro rio não existirá. Tudo é água que flui: as montanhas, as casas, as pedras, as árvores, os animais, os filhos, o corpo… Assim é tudo, assim é a vida: tempo que flui sem parar. Daquilo que ele supostamente escreveu, restam apenas fragmentos enigmáticos. Dentre eles, um me encanta: ‘Tempo é criança brincando, jogando.’

Tempo é criaça? O que o filósofo queria exatamente eu não sei. Mas eu sei que as crianças odeiam chronos, odeiam as ordens que vêm dos relógios. O relógio é o tempo do dever: corpo engaiolado. Mas as crianças só reconhecem, como marcadores do seu tempo, os seus próprios corpos. As crianças não usam relógios para marcar tempo; usam relógios como brinquedos. Brinquedo é o tempo do prazer: corpo com asas. Que maravilhosa transformação: usar a máquina medidora do tempo para subverter o tempo. Criança é kairós brincando com o chronos, como se ele fosse bolhas de sabão…

O ano chega ao fim. Ficou velho. Chronos faz as somas e diz que eu também fiquei mais velho. Faço as subtrações e percebo que me resta cada vez menos tempo. Fico triste: saudade antes da hora. A Raquel, quando tinha três anos, me acordou para saber se quando eu morresse eu iria ficar triste! Lembro-me do verso da Cecília, para a avó: ‘Tu eras uma ausência que se demorava, uma despedida pronta a cumprir-se…’

kairós vem em meu socorro, para espantar a tristeza. Vem como criança, brincando com chronos. Nas mãos de kairós, chronos se transforma em bolhas de sabão: redondas, perfeitas, efêmeras, eternas. Como o amor. Amor também é bolha de sabão. Disso sabia o Vinicius que escreveu para a mulher amada: ‘Que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.’ Mas, além de todas as namoradas, Vinicius namorava a vida. O amor é a vida acontecendo no momento: passado, sem futuro, presente puro, eternidade numa bolha de sabão. Robert Frost, sem ter tantas namoradas, namorou a vida em cada momento. Na sua lápide ele mandou escrever: ‘Teve um caso de amor com a vida…’ Ponho-me a brincar com a vida e uma estranha metamorfose acontece: deixo de ser velho. Sou criança de novo…”


O que é escrever bem, afinal?

Foi a primeira pergunta que me fiz após ter saído  da premiação do 5º Prêmio Joinville de Expressão Literária.

O que é escrever bem?

É colocar umas palavras de pouco uso, que somente o dicionário sabe do significado?

Para mim, sinceramente não! Estamos em uma fase em que jovens escritores (agora eu não estou dizendo NADA influenciado pelo concurso) buscam muito pela perfeição, isso os atrasa e muitas vezes a perfeição vem com a naturalidade.
Rubens da Cunha disse em uma oficina literária que devemos usar mais substantivos do que adjetivos e advérbios. E concordo com ele: o escritor precisa dominar essas classes de palavras, precisa saber o que realmente elas significam e o que poderiam vir a signficar.

Escrever é um tema polêmico. Modos de escrever e saber respeitá-los é mais ainda. Em uma época em que tantos escritores são descobertos, tantos livros estão na listas dos mais vendidos, mas muitas vezes estão lá somente por causa do dinheiro, não estão por causa de seu valor literário; debater esta polêmica é fundamental.


O mundo é bárbaro

Eis o último livro do Luis Fernando Verissimo. Achava que ainda não era o tempo de comprá-lo, esperar o tempo passar; mas não resisti numa Feira do Livro que fui aqui na cidade. Não queria comprar e saí com dois títulos e mais um reservado na livraria!

O mundo é barbaro – e o que nós temos a ver com isso tem um tom mais sério. Não pdoeria ser super engraçado falando de Barack Obama, China, aquecimento global, enfim, não poderia ser engraçado falando do mundo. Ainda há, porém, os vestígios de humor que só o Verissimo tem.

Para quem ficou com água na boca, aqui vai um pedacinho:

No filme O Exterminador do Futuro um schwarzengger [isso mesmo, com minúscula] é mandado ao passado para matar a mãe de um líder revolucionário que está incomodando o governo. Matar o inimgo pela raiz, por assim dizer. A lógica é inatacável: se não nascer no passado, o problema não existirá no futuro. Muita gente já deve ter imaginado o que faria se tivesse o mesmo poder de voltar atrás para alterar um detalhe, refazer uma escolha, corrigir uma bobagem e mudar a sua vida. Há quem diga que a primeira tarefa do hipotético exterminador deveria ser voltar 508 ano, se postar na praia e, à aproximação dos barcos de Cabral, começar a agitar os braços e gritar ‘Não! Não!'”


Vampiros à solta

Hoje terminei de ler Crepúsculo, de Stephenie Meyer. Eu já estava preparado que não poderia esperar muito do livro. E estava correto. Até a metade do livro, já estava enjoado da escrita de Meyer. Faltam muitos recursos literários e ela causa erros fatais, como “certeza absoluta”; claro que pode ser erro da tradutora, mas ainda assim é um erro.

Percebi também que todos os capítulos começam com o mesmo recurso estilístico: Bella Swan fazendo um comentário sobre a vida dela e toda a reviravolta que teve após conhecer Edward Cullen. Narrado em primeira pessoa, o primeiro volume da série (que é composta por Lua Nova, Eclipse e Breaking Dawn) tem muitas passagens um tanto quanto shakesperianas, que são confirmadas pela autora já no início. Ela passa longe, porém, de ter o tom amoroso de Willian e erra ao demosntrar o amor de Bella por Edward sempre da mesma maneira: como este amor pode acabar com a vida dela, suspiros gélidos que arrepiam o pescoço e por aí vai.

Ainda assim, com um romance fraquinho, Stephenie tem uma carta na manga: seus vampiros tem poderes incríveis, mas ainda não é isso que é o fantástico, mas sim o modo como eles adquiriram estes poderes. Antes de tornarem-se vampiros, Edward, Alice, Carlisle, Esmett e outros, eram humanos, claro. E como qualquer humano, algumas sensações têm mais destaque. É o caso de Jasper, que quando humano percebia facilmente quando as pessoas estavam tristes, magoadas, apavoradas, felizes, com medo… Depois de ser mordido, Jasper ganhou o poder (ou será que aperfeiçoou o seu “dom”?) de mudar as sensações das pessoas de acordo com a situação.

Espero que não tenha magoado alguém (principalmente alguma menina, já que a maioria dos fãs é feminina), mas não gostei mesmo deste livro. Ano que vem, mesmo assim, lerei o volume dois. Quem sabe Stephenie tenha amadurecido sua escrita.


O mestre do terror

Stephen Edwin King, nasceu em Portland (EUA). Teve uma vida muito sofrível já na infância, quando aos dois anos o pai deixa a família e a mãe, Nellie Ruth Pillsbury, passa por sérias dificuldades financeiras para criar Stephen e o irmão adotivo David. Ainda na infância, King vê um amigo morrer em um trágico acidente: ficara preso na ferrovia e fora atropelado por um trem. Seria o pontapé inicial para seus dotes literários de terror? Dizem que sim…

O primeiro livro que li dele foi Carrie, a Estranha. Não poderia ter começado com um melhor. Li quando tinha treze anos às escondidas de minha mãe. Foi o único livro que ao reler não consegui captar outros detalhes, tamanha foi a penetração da história.

Ao sair do Ensino Médio, King começou a escrever o que ele considera a sua obra-prima: a série A Torre Negra, composta de sete volumes que levaram 33 anos para ser compostos. Infelizmente só pude ler o primeiro volume, O Pistoleiro. A série é tão boa que já estão comparando a O Senhor dos Anéis!

 

 

“Talento é mais barato que sal. O que separa a pessoa talentosa da bem-sucedida é muito trabalho duro.”