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E o Prêmio Nobel vai para…

Jean-Marie Gustave Le Clézio, escritor francês criador de títulos muito famosos na França e de reputação invejável. Desde 1985 que um francês não ganhava o prêmio de, em média, 10 milhões de coroas suecas (1 milhão de euros!).

 

Abaixo um trecho de O Peixe Dourado, clamado como um dos melhores dele.

 

 

Primeiro Capítulo 

Quando eu tinha seis ou sete anos, fui raptada. Na verdade, minhas recordações são bem vagas, pois era muito pequena e tudo o que vivi desde então apagou essa lembrança. É mais como um sonho longínquo, terrível, que volta certas noites, que me perturba até durante o dia. Há uma rua branca de sol, poeirenta e vazia, o céu azul, o grito lancinante de um pássaro negro e, de repente, mãos de homem que me jogam dentro de um grande saco e eu sufoco. Foi Lalla Asma quem me comprou.

 

Por isso não conheço meu verdadeiro nome, aquele que minha mãe me deu ao nascer, nem o nome de meu pai, nem o lugar onde nasci. Tudo o que sei foi o que Lalla Asma me contou, que uma noite cheguei em sua casa e por isso ela me chamou Laila, a Noite. Venho do sul, de bem longe, talvez de um país que não exista mais. Para mim, antes não existia nada, só a rua poeirenta, o pássaro negro e o saco.

 

Depois, fiquei surda de um ouvido. Isso aconteceu quando brincava na rua, diante da porta de casa. Uma caminhonete me atingiu, e quebrei um osso no ouvido esquerdo.
Tinha medo do escuro, medo da noite. Lembro-me de que acordava algumas vezes e sentia o medo entrar em mim como uma cobra gelada. Não ousava respirar. Então me enfiava no leito de minha senhora e apertava-me contra suas costas gordas, para não ver, para não sentir. Tenho certeza de que Lalla Asma acordava, mas nem uma vez ela me expulsou e, por isso, era realmente minha avó.

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